Para a entrega efetiva da Terapia  Cognitivo-comportamental(TCC), a implementação de um tratamento embasado em evidências é imperativa, exigindo que o terapeuta possua conhecimentos e treinamentos específicos. Não obstante, terapeutas mais experientes, mesmo dotados de conhecimentos consolidados, recursos adequados e habilidades suficientes para conduzir a TCC, frequentemente desviam-se dessa prática. Esse desvio, conhecido como deriva terapêutica, caracteriza-se pela não aderência do tratamento embasado em evidências e dos protocolos para os quais foram treinados (Rameswari et al., 2021).

A compreensão desse fenômeno demanda a análise de diversos fatores. O terapeuta, ao longo de todo o processo de tratamento, enfrenta constantes escolhas, desde determinar o foco em cada momento até selecionar as intervenções mais apropriadas e embasadas para um paciente ou transtorno específico. Por exemplo, mesmo conhecendo a eficácia de uma intervenção para um determinado transtorno, como a exposição imaginária no Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), o terapeuta pode evitar sua aplicação por receio de resultados adversos ou desconforto para o paciente. Este exemplo evidencia um dos fatores conducentes à deriva terapêutica em terapeutas experientes: crenças e atitudes (Waller & Turner, 2016). Muitas escolhas clínicas são orientadas por crenças e atitudes do terapeuta, às vezes resultando em prejuízos significativos para os pacientes.

Observa-se com frequência terapeutas em supervisão reportando distorções cognitivas relacionadas à estrutura das sessões de TCC, argumentando que ela torna o terapeuta demasiadamente rígido, resultando em uma abordagem “robotizada”, que por sua vez poderia provocar desconforto no paciente e prejudicar a aliança terapêutica. Esses pensamentos, embora os terapeutas reconheçam a importância da estrutura na efetividade da TCC, muitas vezes os afastam dessa prática.

Outro fator que contribui para a deriva terapêutica é a confiança adquirida com a experiência, levando a crenças positivas acerca do próprio desempenho, as quais nem sempre são verídicas. Pesquisas indicam que muitos terapeutas avaliam seu nível de habilidade como superior ao que realmente é (Waller & Turner, 2016).

Para evitar a deriva terapêutica sem renunciar a habilidades previamente adquiridas, é crucial a atualização contínua por meio de cursos, participação em congressos e leitura de publicações científicas. Simultaneamente, a prática reflexiva auxilia na identificação de crenças relacionadas ao tratamento e à relação terapêutica. Estudos indicam que a prática reflexiva eleva a empatia, confiança e competência terapêutica (Rameswari et al., 2021).

A supervisão facilita essa prática reflexiva, ajudando os terapeutas a identificarem pensamentos e crenças que interferem em sua prática (Rameswari et al., 2021). Monitoramento por meio da análise de sessões gravadas e avaliação com escalas de competência, como o CTS (Young & Beck, 1980), possibilita a identificação de competências a serem desenvolvidas ou reavivadas, assim como a compreensão de crenças que podem interferir nas escolhas clínicas. A construção de experimentos comportamentais é uma ferramenta crucial que permite aos terapeutas testar suas crenças, avaliando a validade dessas percepções. Recursos da TCC para autocrítica e autorreflexão, como o Registro de Pensamento Disfuncional, também são valiosos nesse processo de autoconhecimento e identificação de possíveis distorções e vieses de interpretação.

Em suma, é essencial que o terapeuta se engaje continuamente em um processo de monitoramento de sua prática, utilizando a autoavaliação e feedback constante de supervisores ou pares, refletindo sobre seus pensamentos, crenças e comportamentos e avaliando o impacto de suas escolhas.

Referências:

Pameswari, Tiffany & Hayes, Brett & Perera-Delcourt, Ramesh. (2021). Measuring therapist cognitions contributing to therapist drift: a qualitative study. The Cognitive Behaviour Therapist. 14. 1-15. 10.1017/S1754470X21000039. 

Waller, G., & Turner, H. (2016). Therapist drift redux: Why well-meaning clinicians fail to deliver evidence-based therapy, and how to get back on track. Behaviour research and therapy, 77, 129–137. https://doi.org/10.1016/j.brat.2015.12.005

Young J, & Beck A. (1980) Cognitive Therapy Scale: Rating Manual. Unpublished manuscript. Center for Cognitive Therapy, Philadelphia, PA.

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